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Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out — Final Explicado
Quando a fé encena milagres e a verdade cobra seu preço
Atenção: este texto contém SPOILERS do filme.
O instante em que tudo desmorona
A história começa com um choque calculado. Em pleno Domingo de Ramos, durante um sermão violento e moralista, o monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin) abandona o púlpito, entra em um pequeno closet ao lado do altar e, segundos depois, um estrondo ecoa pela igreja lotada.
O reverendo Jud Duplencity (Josh O’Connor) é o primeiro a chegar. Wicks está no chão, aparentemente morto, com um objeto metálico cravado nas costas. O espaço é minúsculo, não há janelas, não há outra saída. Ninguém entrou. Ninguém saiu.
Nasce ali o que Benoit Blanc chamará mais tarde de crime impossível.
Um suspeito pronto para o sacrifício
Recém-transferido, com um passado violento e tentando se reconstruir dentro da fé, Jud rapidamente se torna o principal suspeito. Para a cidade — e para a própria igreja — ele é o bode expiatório perfeito.
A comoção toma conta de Chimney Rock, enquanto a investigação começa sob uma nuvem de fanatismo, silêncio e medo. É nesse cenário que surge Benoit Blanc (Daniel Craig), convocado para auxiliar a chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis).
Desde o início, Blanc percebe que aquela morte não é apenas um quebra-cabeça lógico, mas o sintoma de algo muito mais profundo e apodrecido.
Um púlpito construído sobre o medo
Conforme a investigação avança, a imagem pública de Jefferson Wicks começa a ruir. Ele não era apenas um líder religioso severo — governava sua congregação pela humilhação, pela culpa e pela exclusão.
Seus discursos atacavam mães solteiras, pessoas LGBTQIA+ e qualquer fiel que ousasse divergir de sua visão extremista de fé. Quem permanecia na igreja não o fazia por devoção genuína, mas por dependência emocional e espiritual.
Entre os fiéis mais próximos estavam:
- Martha Delacroix (Glenn Close), braço-direito de Wicks e guardiã dos segredos da igreja;
- Nat Sharp (Jeremy Renner), dentista amargurado por um divórcio devastador;
- Samson Holt (Thomas Haden Church), zelador da paróquia, alcoólatra em recuperação e parceiro de Martha;
- além de outros membros marcados por ressentimento, fanatismo ou frustração pessoal.
O filme deixa claro: motivos não faltavam. O problema era descobrir quem teve coragem — e frieza — para executar o plano.
O segredo enterrado há gerações
A virada da investigação acontece quando Blanc descobre a obsessão de Wicks por uma joia histórica conhecida como Eve’s Apple.
Décadas antes, o avô de Jefferson, o reverendo Prentice, teria engolido o diamante antes de morrer. A joia jamais foi recuperada. A obsessão atravessou gerações.
A mãe de Jefferson, Grace Wicks, foi taxada de louca após destruir partes da igreja em busca da pedra. Agora, Jefferson planejava abrir o túmulo do avô para finalmente se apropriar da fortuna.
Nesse ponto, o filme revela algo crucial: o assassinato não nasceu do ódio momentâneo, mas de uma conspiração cuidadosamente planejada.
Um plano engenhoso — e cruel
O plano original envolvia três pessoas: Martha Delacroix, Nat Sharp e Samson Holt.
Convencida de que a joia havia corrompido toda a família Wicks, Martha decide agir antes que Jefferson repita o mesmo ciclo. Ela droga o cantil que ele bebe após os sermões com uma substância paralisante e costura uma faca falsa em sua batina.
Quando Wicks cai no closet, Nat Sharp entra como médico para prestar “socorro”. Sozinho com o corpo, remove a faca falsa e o esfaqueia de verdade. O assassinato acontece ali, sem testemunhas, consolidando o crime impossível.
Mas essa era apenas a primeira etapa.
O milagre fabricado
A segunda fase do plano é ainda mais perturbadora: uma ressurreição encenada.
Durante o funeral, o corpo de Wicks seria trocado pelo de Samson. Dias depois, o túmulo da família seria explodido e Samson surgiria diante das câmeras disfarçado de Jefferson, alimentando o delírio coletivo de um milagre.
Enquanto a cidade se voltaria para a “ressurreição”, Martha recuperaria a joia e a esconderia para sempre.
Por pouco, o plano não se concretiza.
Quando a ganância quebra a aliança
O elo frágil da conspiração é Nat Sharp. Movido pela ganância, ele decide romper o acordo. Mata Samson na floresta e tenta assumir o controle total da situação, planejando ficar com a joia e incriminar Jefferson por tudo.
Ao perceber que Martha desconfia, tenta envenená-la.
Mas ela troca as xícaras.
Nat morre com o próprio veneno.
Destruída pela perda de Samson e pelo peso de suas escolhas — ter causado a morte de Wicks e, indiretamente, a de Nat — Martha toma uma dose letal do mesmo medicamento. Antes de morrer, confessa tudo a Jud e recebe os últimos ritos.
A decisão que muda tudo
Benoit Blanc ouve a confissão. Ele entende cada peça do quebra-cabeça. Resolve o caso por completo.
Mas faz algo inédito na franquia.
Diante da imprensa, Blanc afirma que não conseguiu solucionar o mistério. Uma mentira consciente. Uma escolha moral. Ele se recusa a transformar aquela tragédia em espetáculo público.
A verdade vem à tona depois, de forma discreta, pelas vias legais. Sem milagre. Sem circo. Sem catarse coletiva.
O símbolo final e o verdadeiro milagre
No encerramento, Jud esconde o diamante dentro da estátua de Cristo no altar — um gesto simbólico que sela o fim da maldição da joia. Ele também muda o nome da igreja, tentando ressignificar um espaço antes dominado por medo, culpa e controle.
O filme deixa uma mensagem clara:
O verdadeiro milagre não foi a ressurreição encenada.
Foi a chance de romper ciclos de violência, ganância e hipocrisia travestidos de fé.
Um final amargo, inteligente e profundamente coerente com tudo o que Vivo ou Morto constrói até o último minuto.
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