Depois de oito episódios repletos de espíritos, conspirações e mistérios, A Leste do Palácio entrega um final que deixa uma mensagem muito clara: os fantasmas nunca foram os verdadeiros monstros. Durante boa parte da série acreditamos que tudo gira em torno da maldição do Espírito do Lago, mas, conforme a história avança, percebemos que o sobrenatural apenas potencializa a maldade que já existia entre os vivos. Se você terminou a série com dúvidas sobre quem criou a maldição, quem matou os príncipes e qual foi o destino de Gu-cheon e Saeng-gang, vamos explicar tudo. Atenção: a partir daqui há SPOILERS de toda a série. O Espírito do Lago era realmente o responsável por tudo? No início da série, todos acreditam que o chamado Espírito do Lago é o responsável por assassinar os príncipes herdeiros e tentar acabar com a família real. A origem dessa entidade remonta a cerca de trinta anos antes. Na época, uma dama da corte favorita do antigo rei foi acusada de manter um relacionamento proibido com um guarda e de estar grávida dele. A acusação, porém, era falsa. Manipulada pela Rainha Viúva, a mulher acabou condenada à morte. Antes de morrer, ela jurou que retornaria como um won-gwi, um espírito movido pelo ressentimento, para destruir toda a linhagem real. Naturalmente, todos passaram a acreditar que aquela promessa era a origem da maldição. Mas essa é apenas metade da verdade. A verdadeira origem da maldição A grande reviravolta da série mostra que a suposta maldição nunca teria sido tão devastadora sem a ganância humana. Quem realmente iniciou toda a tragédia foi Lady Choi Suk-bin, mãe do atual rei. Ao presenciar a promessa de vingança feita pela dama da corte executada, ela percebeu uma oportunidade perfeita para colocar seu próprio filho no trono. Foi ela quem envenenou secretamente os outros príncipes herdeiros e fez parecer que as mortes eram obra do espírito vingativo. Ou seja...A família real passou décadas acreditando que era vítima de uma maldição sobrenatural. Quando, na realidade, o primeiro grande massacre havia sido cometido por uma pessoa viva. Essa revelação muda completamente a interpretação da série. Os fantasmas não criaram a tragédia. Eles nasceram dela. Quem matou a mãe de Saeng-gang? Outro dos grandes mistérios envolve a morte da mãe de Saeng-gang. Durante quase toda a série, a protagonista acredita que a responsável foi a Rainha Mãe. Mas novamente a verdade é muito mais cruel. A mãe de Saeng-gang conhecia toda a conspiração que havia levado o rei ao trono. Ela participou dos acontecimentos por obrigação, já que servia Lady Choi e não tinha como desafiar suas ordens. Quando deixou o palácio para esconder os poderes sobrenaturais da filha, tornou-se uma ameaça. Se resolvesse contar a verdade, todo o reino descobriria a conspiração. Por isso...Foi a própria Lady Choi, avó de Saeng-gang, quem mandou envenená-la. A única pessoa em quem Saeng-gang realmente confiava era justamente quem destruiu sua família. É uma das revelações mais dolorosas de toda a série. Quem matou os príncipes herdeiros? Talvez essa seja a maior surpresa do final. Durante toda a história acreditamos que os assassinatos foram obra do Espírito do Lago. Só que isso não é verdade. Quem matou seus próprios irmãos foi o Príncipe Herdeiro. Assim como Saeng-gang e seu pai, ele também conseguia ouvir espíritos. Ao descobrir que seu pai havia chegado ao poder graças a uma conspiração e ao assassinato dos próprios irmãos, ele conclui que aquela era simplesmente a forma como a família real mantinha o trono. Então decide repetir a história. Elimina todos os irmãos que estavam à sua frente na sucessão para garantir que seria o próximo rei. Quando o atual rei descobre a verdade, toma uma decisão extrema. Ele mata o próprio filho. Só que esse ato produz exatamente aquilo que ele tentava evitar. Movido pelo ódio, o príncipe retorna como um ak-gwi, um espírito maligno infinitamente mais poderoso do que qualquer won-gwi. É nesse momento que a verdadeira maldição finalmente nasce. Não por causa da dama da corte...Mas pela repetição do mesmo ciclo de ambição, violência e assassinatos dentro da própria família. O Reino dos Gwi Um dos elementos mais interessantes da série é o chamado Reino dos Gwi. É uma dimensão paralela onde vivem os espíritos. Visualmente, lembra bastante o Mundo Invertido de Stranger Things, mas possui identidade própria inspirada no folclore coreano. É nesse lugar que Gu-cheon enfrenta as entidades mais perigosas e onde acontece a batalha final. Ali também conhecemos o misterioso Gwi-mae Primordial, uma entidade gigantesca que parece representar a origem dos desejos, da escuridão e da corrupção humana. A série nunca explica completamente sua natureza. E isso torna tudo ainda mais interessante. Ele parece existir como uma força que apenas responde aos sentimentos humanos mais sombrios. Por que Gu-cheon faz um pacto? Quando percebe que Saeng-gang está prestes a morrer enfrentando o Príncipe Herdeiro sozinha, Gu-cheon toma a decisão mais importante da série. Ele aceita fazer um pacto com o Gwi-mae Primordial. Em troca do poder necessário para destruir um ak-gwi, ele entrega sua própria liberdade. Naquele momento ele já sabe que dificilmente conseguirá escapar completamente das consequências. Mas escolhe salvar Saeng-gang. É um sacrifício silencioso. E talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. A batalha final O confronto entre Gu-cheon e o Príncipe Herdeiro acontece dentro do Reino dos Gwi. Enquanto isso, no mundo real, o rei finalmente faz aquilo que deveria ter feito muitos anos antes. Ele assume publicamente seus crimes e reconhece o massacre cometido contra um povo inocente durante uma epidemia. Esse pedido de perdão enfraquece os espíritos vingativos que alimentavam o poder do ak-gwi. Com o inimigo enfraquecido, Gu-cheon consegue atravessar sua alma com a espada e finalmente destruí-lo. É o fim do ciclo de violência iniciado décadas antes. Mas existe um preço. Ao matar um ak-gwi, Gu-cheon também passa a carregar parte dessa maldição. O que acontece com Gu-cheon? Depois da batalha, Gu-cheon consegue salvar Saeng-gang. Porém entra em coma durante vários dias. Quando desperta, recebe do rei a liberdade para deixar o palácio. Tudo parece terminar bem. Só que existe um detalhe que quase passa despercebido. Por causa do pacto feito com o Gwi-mae Primordial, Gu-cheon continua preso ao Reino dos Gwi. Fisicamente ele pode caminhar entre os vivos. Mas espiritualmente pertence ao mundo dos mortos. A qualquer momento poderá ser chamado de volta. É um final agridoce. Ele venceu. Mas nunca ficou realmente livre. O destino de Saeng-gang Saeng-gang finalmente descobre toda a verdade sobre sua família. Perde a última imagem idealizada que tinha da avó. Também entende que seu pai sempre carregou culpa pelas decisões do passado. No final, escolhe abandonar o palácio ao lado de Gu-cheon. Mesmo sem saber quanto tempo ainda poderão permanecer juntos. Afinal, quem era o verdadeiro vilão? É fácil responder que era o Príncipe Herdeiro. Ou Lady Choi. Ou até mesmo o Espírito do Lago. Mas acredito que essa não seja a mensagem da série. O verdadeiro antagonista sempre foi a ganância pelo poder. Cada geração repetiu exatamente os mesmos erros. Mentiras. Assassinatos. Conspirações. Traições. Os espíritos apenas surgiram como consequência dessas escolhas. É por isso que A Leste do Palácio funciona tão bem. Ela usa fantasmas para contar uma história que, no fundo, nunca foi sobre fantasmas. Foi sobre como o poder pode transformar pessoas comuns nos verdadeiros monstros. Minha interpretação do final O que mais gostei foi justamente o fato de o roteiro não culpar apenas o sobrenatural. Em muitos filmes de terror, basta destruir a criatura para que tudo volte ao normal. Aqui não. Os fantasmas só existiam porque alguém escolheu mentir, matar e esconder a verdade. Quando o rei finalmente assume seus crimes e Gu-cheon rompe o ciclo de vingança, a maldição perde sua força. É uma conclusão muito mais interessante do que simplesmente derrotar um demônio. No fim, A Leste do Palácio fala menos sobre espíritos e muito mais sobre culpa, herança, poder e as consequências de decisões que atravessam gerações. E talvez seja exatamente por isso que essa seja uma das melhores séries de fantasia sombria que a Netflix lançou nos últimos tempos.
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