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Gabrielle

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O Senhor das Moscas: análise da minissérie que revela o lado sombrio da natureza humana

Um grupo de garotos britânicos que ficam presos em uma ilha tropical desocupada e que gradualmente caem na anarquia à medida que as convenções sociais desaparecem e as tentativas de governar com responsabilidade fracassam.

História

Tudo começa quando um avião que transporta um grupo de garotos britânicos cai em uma ilha tropical. Os adultos morrem e as crianças ficam completamente sozinhas.

Inicialmente, eles tentam reproduzir aquilo que conhecem da sociedade, mas, quando as regras desaparecem, a besta interior desperta.

História

Pode Ver Sem Medo

Imagine colocar dezenas de crianças em uma ilha paradisíaca, longe de qualquer adulto, sem regras, sem autoridades e sem ninguém para dizer o que é certo ou errado.

 

Agora imagine que, pouco a pouco, esse pequeno grupo que inicialmente tenta criar uma sociedade organizada começa a se dividir, a sentir medo e a seguir aqueles que oferecem força em vez de razão.

 

É justamente essa experiência que O Senhor das Moscas apresenta.

 

A nova minissérie, adaptada por Jack Thorne a partir do clássico romance de William Golding, mantém a história ambientada no início da década de 1950, em um período em que a Segunda Guerra Mundial ainda estava muito presente na memória coletiva. São apenas quatro episódios, mas suficientes para construir uma história desconfortável, visualmente impressionante e, principalmente, perturbadora.

 

E talvez o mais inquietante seja perceber que os personagens que protagonizam essa descida ao caos são crianças.

 

 

Uma ilha, um acidente e nenhum adulto

 

A história começa em uma ilha tropical exuberante e remota.

 

Um avião caiu e, por algum motivo, nenhum dos adultos sobreviveu. Restam apenas dezenas de crianças, agora completamente isoladas e obrigadas a descobrir como sobreviver.

 

O primeiro sobrevivente que conhecemos é Nicky, interpretado por David McKenna. Inteligente, míope, rechonchudo e vítima constante da crueldade dos colegas, ele carrega o apelido que mais detesta: Piggy.

 

Piggy encontra Ralph, vivido por Winston Sawyers, um garoto carismático, alegre e muito mais preparado para conquistar a simpatia dos outros.

 

Com a ajuda de uma concha encontrada na ilha, os dois conseguem reunir os sobreviventes.

 

E é nesse momento que começa a tentativa de construir uma nova sociedade.

 

 

Piggy tem as ideias. Ralph tem o carisma

 

Piggy rapidamente percebe quais são as necessidades mais urgentes.

 

É preciso construir abrigos.

 

É preciso manter uma fogueira acesa para sinalizar a posição da ilha e permitir que alguém encontre o grupo.

 

É preciso estabelecer regras.

 

É preciso manter todos organizados.

 

O problema é que Piggy não possui o perfil de liderança.

 

Mesmo tendo conhecimento, inteligência e uma enorme coleção de curiosidades aprendidas com sua tia, ele não consegue conquistar a autoridade necessária para comandar aquele grupo.

 

Ralph, por outro lado, possui exatamente aquilo que Piggy não tem: carisma.

 

Com seu sorriso, sua energia e sua facilidade para se comunicar, Ralph rapidamente conquista os demais sobreviventes e acaba eleito líder.

 

E essa escolha já estabelece uma das grandes questões da história:

o melhor líder é aquele que sabe o que precisa ser feito ou aquele que consegue fazer as pessoas acreditarem nele?

 

 

Jack entra em cena

 

Entre os sobreviventes está um grupo bastante diferente.

 

É o coral de uma escola de elite, liderado por Jack, interpretado por Lox Pratt.

 

Desde o primeiro momento, Jack demonstra uma personalidade marcada pelo sentimento de superioridade. Ele representa o privilégio das escolas particulares britânicas e carrega consigo uma confiança que rapidamente começa a se transformar em autoritarismo.

 

Enquanto Ralph defende organização, responsabilidade e resgate, Jack quer liberdade.

 

Quer caçar.

 

Quer se divertir.

 

Quer se livrar das restrições impostas pelos adultos.

 

Inicialmente, Ralph e Jack conseguem estabelecer uma espécie de acordo. Jack e os integrantes do coral ficam responsáveis pela caça, enquanto Ralph tenta organizar o restante do grupo.

 

Mas essa convivência não dura muito.

 

Jack começa a perceber que o medo, a força e a sensação de pertencimento podem ser ferramentas muito mais poderosas do que regras e argumentos.

 

E é aí que a ilha começa a mudar.

 

 

Quando as crianças deixam de seguir as regras

 

O grande conflito da série nasce da disputa entre Ralph e Jack.

 

Ralph acredita que a sobrevivência depende da organização.

 

Jack começa a acreditar que a sobrevivência depende da força.

 

Piggy tenta usar a razão para encontrar soluções.

 

E Simon, interpretado por Ike Talbut, permanece como uma espécie de voz dissidente dentro desse conflito.

 

Mas o grupo não é formado apenas por esses personagens.

 

Existem também os littluns, as crianças menores, algumas com apenas cinco ou seis anos, assustadas e procurando alguém que possa protegê-las.

 

E esse medo será fundamental e elas ainda acreditam que há um monstro na ilha.

 

Quanto mais os sobreviventes ficam assustados, mais fácil se torna abandonar a racionalidade e procurar alguém que prometa segurança.

 

Jack entende isso.

 

E começa a usar o medo a seu favor.

 

Seu humor cruel, sua coragem quase performática e suas afirmações autoritárias fazem com que ele consiga minar aqueles que discordam dele.

 

Piggy passa a ser tratado como um sabe-tudo irritante.

 

As tentativas de Ralph de manter o grupo unido começam a falhar.

 

E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser uma comunidade de sobreviventes começa a se transformar em duas sociedades diferentes.

 

 

O passado dos meninos também importa

 

Um dos elementos interessantes da minissérie são os flashbacks.

 

A narrativa não fica limitada à ilha.

 

Em determinados momentos, somos levados para suas vidas anteriores, mostrando acontecimentos que ajudam a entender quem são aqueles garotos e por que eles reagem de determinadas maneiras.

 

Jack, por exemplo, observa os pais se despedindo dos filhos antes da viagem de avião.

 

Ralph encara o pai durante o funeral da mãe, tentando compreender como lidar com a morte.

 

Simon aparece diante de uma imagem de Jesus Cristo na igreja, questionando se Deus conhece seus segredos e se também o julga.

 

E existe ainda a relação problemática de Simon com o próprio pai.

 

Esses momentos ajudam a mostrar que os garotos não chegaram à ilha como páginas em branco.

 

Eles já carregavam experiências, traumas, inseguranças, valores e modelos de comportamento.

 

Talvez a ilha não crie aquilo que eles se tornam.

 

Talvez apenas retire as barreiras que impediam aquilo de aparecer.

 

 

A ilha é linda. E isso torna tudo ainda pior

 

Visualmente, O Senhor das Moscas é impressionante.

 

A ilha é apresentada através de uma fotografia marcada por verdes intensos e vermelhos vibrantes, criando uma espécie de paraíso tropical que progressivamente se transforma em um ambiente ameaçador.

 

Em determinados momentos, a câmera utiliza uma lente olho de peixe que enquadra os garotos quase como se eles estivessem dentro de um aquário.

 

É uma escolha visual interessante porque transmite a sensação de que estamos observando aquelas crianças confinadas em um experimento.

 

Como se estivéssemos do lado de fora olhando para dentro.

 

Esperando alguma coisa quebrar.

 

E quebra.

 

As sequências de tensão começam de maneira relativamente angustiante e vão adquirindo características quase alucinatórias.

 

Há um confronto eletrizante com um javali criado em computação gráfica, uma celebração noturna que termina em tragédia e o chamado "Evento Terrível", que marca um dos momentos mais importantes da história.

 

E aqui faço uma ressalva: não considero O Senhor das Moscas uma série de terror.

 

Ela possui imagens perturbadoras e momentos extremamente tensos, mas o terror está menos naquilo que aparece na tela e muito mais naquilo que a história nos faz pensar.

 

 

O verdadeiro terror está nas crianças

 

E é justamente aqui que a obra de William Golding continua tão poderosa.

 

Estamos acostumados a enxergar crianças como símbolos de inocência.

 

Esperamos que elas sejam naturalmente boas, puras e incapazes de reproduzir determinados comportamentos.

 

Então O Senhor das Moscas apresenta uma situação que desafia completamente essa ideia.

 

O que acontece quando retiramos os adultos?

 

Quando retiramos as regras?

 

Quando não existe mais uma autoridade superior?

 

Quando ninguém precisa responder pelas próprias ações?

 

Será que uma nova sociedade poderia surgir?

 

Uma sociedade mais justa?

 

Mais livre?

 

Talvez.

 

Mas a série parece fazer uma pergunta muito mais incômoda:

e se conseguirmos apenas criar uma sociedade pior?

 

 

Algumas pessoas nascem más?

 

Essa é uma das questões que mais ficam na cabeça depois de assistir à minissérie.

 

Será que algumas pessoas já nascem com uma tendência maior à crueldade?

 

Ou são as circunstâncias que transformam alguém?

 

Jack é produto do ambiente em que cresceu?

 

Ou determinadas características já estavam ali e apenas encontraram na ilha o espaço necessário para aparecer?

 

A série não oferece uma resposta simples.

 

E talvez seja justamente por isso que funciona.

 

Porque podemos enxergar os personagens como arquétipos facilmente reconhecíveis.

 

Ralph representa a liderança baseada na organização e na tentativa de usar a razão.

 

Piggy representa conhecimento, inteligência e racionalidade.

 

Jack representa força, poder, instinto e autoritarismo.

 

Simon representa uma consciência que tenta enxergar além da disputa entre os dois lados.

 

E ainda temos Roger que observa com prazer o medo das crianças menores.

 

E o que acontece quando esses valores entram em conflito?

 

 

Força ou compaixão?

 

Outra pergunta permanece:

o líder ideal é aquele que demonstra força ou aquele que possui compaixão e capacidade de usar a razão?

 

É fácil dizer que a segunda opção é a correta.

 

Mas observar o comportamento dos meninos torna tudo mais complicado.

 

Em momentos de medo, muitas pessoas preferem alguém que pareça forte.

 

Alguém que prometa proteção.

 

Alguém que diga que possui todas as respostas.

 

E isso faz com que O Senhor das Moscas continue extremamente atual.

 

Mesmo sendo uma história ambientada cerca de 70 anos atrás, sua discussão sobre poder, medo, autoridade e comportamento coletivo permanece reconhecível.

 

É quase uma provocação:

se pegássemos um grupo de pessoas, isolássemos todos e déssemos a oportunidade de começar uma sociedade do zero, conseguiríamos construir algo melhor?

 

A história de Golding parece responder:

bom... parece que sempre podemos piorar.

 

 

As crianças são o grande destaque da minissérie

 

Confesso que, no início, tive dificuldade para entrar na proposta.

 

Talvez pelo exagero teatral de alguns cenários e pela própria linguagem visual da produção.

 

Mas, conforme a história avançou, foram os jovens atores que conseguiram me manter presa à série.

 

E isso era fundamental.

 

Um elenco formado por atores mirins desconhecidos poderia facilmente comprometer uma produção como essa. Afinal, praticamente toda a história depende deles.

 

Mas as escolhas funcionam muito bem.

 

David McKenna incorpora Piggy de maneira extremamente convincente. O personagem é desajeitado, inseguro e desesperado por aceitação e amizade, e o ator consegue transmitir isso sem transformar Piggy em uma caricatura.

 

Winston Sawyers tem o carisma necessário para fazer Ralph parecer um líder natural, mas também consegue mostrar a fragilidade de um garoto que talvez valorize demais a popularidade.

 

Lox Pratt transforma Jack em um antagonista que rapidamente se torna detestável.

 

Mas, para mim, o grande destaque é Ike Talbut como Simon.

 

Sua atuação no terceiro episódio é especialmente comovente e cheia de nuances.

 

É aquele tipo de atuação que faz você pensar:

"Guarde bem este nome."

 

E, na verdade, não são apenas os quatro protagonistas que funcionam.

 

Os garotos maiores e menores contribuem para criar a sensação de que estamos realmente diante de um grupo de crianças tentando compreender um mundo que deixou de fazer sentido.

 

 

Uma história simples, mas cheia de significado

 

Uma das grandes forças de O Senhor das Moscas está justamente na simplicidade de sua premissa.

 

Um avião cai.

 

Crianças sobrevivem.

 

Não existem adultos.

 

Elas precisam sobreviver.

 

A partir daí, a história constrói uma discussão enorme sobre a natureza humana.

 

E talvez seja por isso que o livro de William Golding tenha se tornado uma leitura obrigatória em tantas escolas ao redor do mundo.

 

Eu já tinha ouvido falar da obra, mas confesso que nunca havia lido o livro.

 

Depois de assistir à minissérie, consigo entender melhor a importância que essa história conquistou.

 

Porque ela pode ser compreendida por qualquer pessoa, mas permite inúmeras interpretações.

 

 

O Senhor das Moscas vale a pena?

 

Para mim, sim.

 

Mas não é uma série para quem está procurando apenas uma aventura de sobrevivência ou uma produção de terror convencional.

 

São quatro episódios e a história não tenta transformar a obra em uma produção longa e cheia de subtramas.

 

A adaptação de Jack Thorne trabalha dentro dessa limitação e concentra suas ambições na transformação dos personagens.

 

E, embora algumas escolhas visuais possam parecer exageradas inicialmente, a composição de cores, os enquadramentos e determinadas sequências criam imagens que permanecem na memória.

 

Mas o que realmente fica é outra coisa.

 

É o desconforto.

 

Eu confesso que alguns acontecimentos me incomodaram profundamente.

 

Não apenas porque são violentos ou perturbadores, mas porque existe algo especialmente inquietante em assistir a crianças ultrapassando limites que imaginávamos que elas jamais seriam capazes de ultrapassar.

 

E esse incômodo continua depois que o episódio termina.

 

 

Afinal, quem é o Senhor das Moscas?

 

Talvez essa seja a pergunta que permaneça depois dos quatro episódios.

 

A ilha não é apenas um lugar onde crianças precisam sobreviver.

 

Ela funciona como um experimento sobre a natureza humana.

 

Quando retiramos as estruturas que organizam nossa sociedade, o que sobra?

 

Razão?

 

Compaixão?

 

Solidariedade?

 

Ou simplesmente a luta pelo poder?

 

Mas existe ainda uma camada importante por trás do próprio título da obra.

 

“O Senhor das Moscas” é uma tradução direta de “Belzebu” (Beelzebub), uma figura associada a uma divindade filisteia que, ao longo da tradição judaico-cristã, passou a ser identificada com um demônio e uma representação do mal.

 

E essa escolha de nome não é por acaso.

 

Na história de William Golding, o “Senhor das Moscas” funciona como uma representação simbólica daquilo que existe dentro do próprio ser humano: a violência, o medo, o desejo de poder e a capacidade de abandonar as regras quando as estruturas da sociedade deixam de existir.

 

Ou seja, o verdadeiro perigo talvez nunca tenha sido a ilha.

 

Nem o suposto monstro que assusta os meninos.

 

O verdadeiro monstro está dentro deles.

 

E é justamente aí que o título ganha uma força ainda maior.

 

O Senhor das Moscas não entrega respostas confortáveis.

 

E talvez seja justamente por isso que uma história escrita há tantas décadas ainda consiga nos atingir.

 

Porque, no fim, a série não está realmente falando apenas sobre aquelas crianças.

 

Está falando sobre nós.

 

E talvez essa seja a parte mais assustadora de todas.

 

 

Uma minissérie curta, visualmente marcante e com excelentes atuações infantis. Não é terror convencional, mas produz um desconforto psicológico que permanece depois dos créditos.

 

Mais do que uma história de sobrevivência, O Senhor das Moscas é uma reflexão sobre poder, medo, liderança, violência e a fragilidade daquilo que chamamos de civilização.

 

E depois de assistir, fica difícil não pensar na pergunta:

se tivéssemos a chance de começar tudo de novo, será que realmente construiríamos uma sociedade melhor?

 

Pode Ver Sem Medo

Curiosidades

O Senhor das Moscas” é uma tradução direta do nome “Belzebu”, uma divindade filisteia posteriormente transformada em demônio pela Bíblia.

 

Um dos usos mais óbvios do amplo simbolismo deste filme envolve os quatro personagens principais: Ralph é visto como liderança e ordem; Piggy representa ciência e intelecto; Jack representa brutalidade e ditadura; Simon é comumente referido como um símbolo semelhante ao de Cristo que representa bondade e espiritualidade. Com o pano de fundo da Segunda Guerra Mundial, o simbolismo ganha um foco mais claro e aprimora a história.

 

Baseado no romance de estreia de 1954 do autor britânico William Golding, “O Senhor da Mosca” é um clássico popular e conhecido, mas não é universalmente popular nas escolas de todos os lugares devido às implicações de que os humanos sempre acabarão recorrendo à violência.
 


A adaptação de *O Senhor das Moscas* realizada pelo roteirista Jack Thorne, o mesmo de Adolescência,  e pelo diretor Marc Munden

Curiosidades

Onde assistir?

A minissérie está no Globoplay com 4 episódios de 1h.

Avaliações

  • IMDB logo 6,6
    Rotten Tomatoes logo 91%
    PVSM logo 7,0

Tags:

#series #drama #sobrevivência #lordoftheflies #osenhordasmoscas

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