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Gabrielle

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Monstro: A História de Lizzie Borden — a romantização dos monstros e os limites entre trauma e violência

Esta série antológica sobre crimes reais oferece um estudo psicológico em várias camadas de indivíduos cujas ações extremas chocaram a sociedade.

História

Presa em um lar cruel da era vitoriana, Lizzie Borden mata os pais em um assassinato sangrento a machadadas que choca a nação.

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Pode Ver Sem Medo

A franquia Monstro, de Ryan Murphy e Ian Brennan, retorna à Netflix com mais uma história de assassinato, desta vez revisitando um dos crimes mais famosos e controversos dos Estados Unidos: o caso de Lizzie Borden, acusada de matar o próprio pai e a madrasta a machadadas, em 1892.

 

Depois de explorar as histórias de Jeffrey Dahmer, dos irmãos Menendez e de Ed Gein, a antologia volta a levantar uma questão que acompanha suas produções: o que leva uma pessoa a cometer atos de violência extrema? E até que ponto conhecer o passado de um criminoso muda a maneira como enxergamos seus crimes?

 

Em Monstro: A História de Lizzie Borden, a narrativa vai além do assassinato que chocou uma cidade inteira e explora repressão, abusos, relações familiares, misoginia e a maneira como a sociedade lida com mulheres que desafiam os papéis que lhes são impostos.

 

Com Ella Beatty no papel principal e Sarah Paulson em uma interpretação marcante de Aileen Wuornos, a série também estabelece uma conexão entre duas mulheres separadas por quase um século, mas que carregam histórias de violência e diferentes experiências de opressão.

 

A produção é muito bem construída, tem um elenco de destaque e uma proposta interessante, mas, mais uma vez, esbarra em uma questão recorrente na franquia: a linha tênue entre compreender a trajetória de um criminoso e romantizar seus atos.

 

Atenção: o post contém spoilers da série e detalhes do caso real.

 

 

A história de Monstro: A História de Lizzie Borden

 

Ambientada principalmente no final do século XIX, a série acompanha Lizzie Borden, uma jovem de uma família abastada de Fall River, Massachusetts, que vive sob as rígidas convenções sociais da época.

 

Por trás da aparente estabilidade financeira da família, existe um ambiente doméstico marcado por tensões, ressentimentos, disputas de poder e uma relação bastante complicada entre Lizzie, seu pai, Andrew Borden, e sua madrasta, Abby Borden.

 

Andrew é um homem rico, autoritário e extremamente controlador, enquanto Abby ocupa o lugar de uma figura materna com quem Lizzie mantém uma relação conflituosa. A jovem também vive as limitações impostas às mulheres naquele período, em uma sociedade na qual a liberdade, a sexualidade e as escolhas femininas eram rigidamente controladas.

 

A série apresenta Lizzie como alguém que acumula frustrações, sentimentos de aprisionamento e raiva, construindo gradualmente o cenário emocional que antecede o crime.

 

Em 4 de agosto de 1892, Andrew e Abby são encontrados mortos na residência da família, assassinados com golpes de machado. Lizzie passa a ser a principal suspeita, e o caso rapidamente ganha repercussão nacional.

 

A partir daí, a produção acompanha a investigação, o julgamento e as consequências do crime na vida de Lizzie, que se transforma em uma das figuras mais conhecidas da história criminal norte-americana.

 

Mas a série não se limita ao mistério de quem matou Andrew e Abby. Ela também apresenta outras mulheres cujas histórias envolvem violência, repressão e a maneira como a sociedade construiu suas próprias narrativas sobre mulheres criminosas.

 

 

A história real de Lizzie BordeN

 

Para compreender a dimensão do caso, é preciso voltar a 1892, quando os assassinatos de Andrew e Abby Borden transformaram uma cidade de Massachusetts em cenário de um dos julgamentos mais conhecidos da história dos Estados Unidos.

 

Lizzie Borden nasceu em 1860 e cresceu em uma família de boas condições financeiras. Apesar da riqueza do pai, a família mantinha hábitos relativamente conservadores, e a relação entre Lizzie e Andrew era frequentemente descrita como difícil.

 

Em 4 de agosto de 1892, Andrew Borden foi encontrado morto no sofá da sala, enquanto Abby Borden foi localizada em outro cômodo da casa. Ambos haviam sido mortos com golpes de um instrumento cortante, geralmente identificado como um machado.

 

Lizzie foi investigada e posteriormente acusada dos assassinatos. O caso ganhou grande repercussão na imprensa, com a sociedade acompanhando cada detalhe da investigação e do julgamento.

 

O julgamento e a absolvição

 

O julgamento de Lizzie começou em junho de 1893. A acusação apresentou elementos circunstanciais e questionou as versões dadas por ela, mas a defesa contestou as evidências e a consistência da investigação.

 

Um dos aspectos mais discutidos foi a ausência de uma prova física conclusiva que demonstrasse que Lizzie havia cometido os assassinatos.

 

Após cerca de uma hora e meia de deliberação, o júri a declarou inocente. Lizzie foi absolvida e nunca mais foi julgada pelos crimes.

 

Apesar da absolvição, a opinião pública permaneceu dividida. Para algumas pessoas, ela era uma mulher injustiçada por uma investigação falha e pelo preconceito da época. Para outras, era a responsável pelos assassinatos que nunca foi punida.

 

O caso permanece sem uma conclusão judicial sobre a autoria dos crimes. A série, por sua vez, assume uma interpretação dramatizada dos acontecimentos, mas é importante separar o que foi comprovado historicamente daquilo que os roteiristas imaginaram.

 

 

Aileen Wuornos: a conexão entre duas mulheres separadas pelo tempo

 

Uma das escolhas mais interessantes da série é a introdução de Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson.

 

Na vida real, Aileen nasceu em 1956 e teve uma trajetória marcada por abandono, violência e vulnerabilidade social. Trabalhou como profissional do sexo e, entre 1989 e 1990, matou sete homens na Flórida. Foi condenada por seis dos assassinatos e executada em 2002.

 

Sua história ficou mundialmente conhecida, especialmente após o filme Monster, de 2003, no qual Charlize Theron interpretou Aileen e recebeu o Oscar de melhor atriz.

 

Na série da Netflix, Aileen é apresentada como uma mulher que conhece a história de Lizzie Borden e desenvolve uma espécie de identificação com ela. Essa conexão, porém, é uma construção ficcional: não há evidências históricas de que a verdadeira Aileen fosse fascinada por Lizzie ou tivesse estabelecido essa relação com os assassinatos de 1892.

 

O que a produção faz é utilizar as duas histórias para explorar como mulheres em contextos sociais muito diferentes podem ser submetidas a situações de violência, opressão e marginalização.

 

Lizzie pertencia a uma família abastada do século XIX, enquanto Aileen vivia à margem da sociedade norte-americana do século XX. Uma foi absolvida, enquanto a outra foi condenada e executada.

 

O contraste entre elas permite à série discutir não apenas a violência praticada, mas também as diferenças na maneira como a sociedade, a imprensa e o sistema de justiça enxergam mulheres acusadas de crimes.

 

E aqui entra um dos elementos mais interessantes da narrativa: embora as duas tenham histórias e circunstâncias muito diferentes, a série procura estabelecer um diálogo entre elas, sem que isso signifique que suas trajetórias sejam equivalentes.

 

 

Minha opinião: quando compreender um monstro se transforma em romantização?

 

Mais uma vez, Monstro traz uma produção muito bem realizada, com uma história que desperta curiosidade e um elenco que, na minha opinião, é um dos grandes destaques da série.

 

Mas também repete uma característica que já observamos em Monstro: A História de Ed Gein: a romantização de pessoas que cometeram crimes brutais.

 

Entendo a proposta de tentar mostrar que ninguém acorda simplesmente um dia e decide matar alguém sem que exista uma trajetória por trás de suas ações. Existem experiências, traumas, abusos, frustrações, ressentimentos e uma série de circunstâncias que podem se acumular até que algo transborde.

 

Acho válido explorar esses elementos e tentar compreender o que existe por trás de comportamentos tão extremos. Afinal, conhecer o contexto de uma pessoa pode ajudar a entender aspectos da violência e até identificar problemas sociais que frequentemente são ignorados.

 

O problema começa quando essa tentativa de compreensão transforma o criminoso em uma figura quase heroica, fazendo com que o sofrimento vivido por ele ocupe tanto espaço na narrativa que as vítimas acabem ficando em segundo plano.

 

E é justamente essa linha que considero interessante discutir na franquia Monstro. Existe uma diferença entre mostrar como uma pessoa chegou a cometer um crime e construir uma narrativa que acaba justificando emocionalmente suas ações.

 

No caso de Lizzie Borden, a série trabalha com uma personagem que vive em uma época de enormes restrições às mulheres, especialmente no que diz respeito à liberdade individual, à sexualidade e às escolhas pessoais. É um contexto importante para entender a história, mas não significa que seja possível afirmar que as circunstâncias apresentadas expliquem os assassinatos reais, cuja autoria continua sem uma conclusão judicial.

 

 

Sarah Paulson é um dos grandes destaques

 

Se existe algo que a franquia costuma acertar, é a escolha do elenco. E aqui, mais uma vez, temos interpretações que dão muita força à história.

 

Ella Beatty entrega uma Lizzie cheia de contradições, oscilando entre a fragilidade e a raiva. É uma personagem que precisa transmitir muito mais do que aquilo que diz, e a atriz consegue sustentar essa complexidade ao longo da narrativa.

 

Charlie Hunnam também merece destaque como Andrew Borden, assim como Rebecca Hall, que constrói uma Abby que participa ativamente das tensões familiares.

 

Mas meu grande destaque é Sarah Paulson.

 

A atriz está incrível como Aileen Wuornos. Ela consegue dar à personagem uma presença intensa, trazendo para a tela uma mulher que parece carregar uma vida inteira de sofrimento, revolta e ressentimento.

 

Sarah já demonstrou diversas vezes sua capacidade de interpretar personagens complexas, especialmente nas produções de Ryan Murphy, mas aqui sua atuação ganha ainda mais força pela maneira como a história de Aileen é conectada à de Lizzie.

 

É uma interpretação que merece atenção não apenas pela caracterização, mas pela forma como a atriz constrói a personalidade e as contradições da personagem.

 

Aileen também é uma figura que levanta questões difíceis. Sua história envolve experiências reais de violência e marginalização, mas também envolve vítimas reais de seus assassinatos. A série apresenta uma perspectiva emocional da personagem sem que isso apague a gravidade dos crimes.

 

 

Duas mulheres, épocas diferentes e uma sociedade que reage

 

Gostei muito da introdução de Aileen na narrativa, principalmente porque ela amplia a discussão para além da história de Lizzie.

 

Temos duas mulheres separadas por quase um século, vivendo realidades completamente diferentes, mas cujas histórias são utilizadas para questionar a maneira como a sociedade reage à violência praticada por mulheres.

 

Lizzie pertencia a uma família rica, tinha uma posição social relativamente privilegiada e foi absolvida. Aileen, por outro lado, vivia em condições de vulnerabilidade, foi condenada por assassinatos e acabou executada.

 

A diferença entre as duas também evidencia como classe social, gênero, contexto histórico e acesso à defesa jurídica podem influenciar a maneira como uma pessoa é percebida e tratada pelo sistema de justiça.

 

Não significa que a situação de uma seja comparável à da outra em todos os aspectos, mas a aproximação entre elas cria uma discussão interessante sobre quem recebe compreensão, quem é considerado perigoso e como essas percepções se transformam ao longo do tempo.

 

A série também provoca uma reflexão sobre a maneira como a sociedade costuma enxergar a violência feminina. Muitas vezes, existe uma dificuldade em aceitar que mulheres também podem ser autoras de atos violentos, o que acaba alimentando tanto a demonização quanto a romantização dessas figuras.

 

 

A trilha sonora e a produção

 

Outro aspecto de que gostei bastante foi a trilha sonora.

 

A mistura de músicas mais contemporâneas com uma história ambientada em outra época cria um contraste interessante e ajuda a estabelecer uma identidade própria para a produção.

 

É uma escolha que não busca necessariamente reproduzir a sonoridade do período, mas aproxima a narrativa do espectador atual, reforçando as emoções e os conflitos apresentados.

 

Visualmente, a série também é muito bem produzida. Os figurinos, os cenários e a ambientação ajudam a construir o universo da época sem deixar de lado a linguagem característica das produções de Ryan Murphy.

 

A direção e a fotografia colaboram para criar uma atmosfera de desconforto e tensão, acompanhando a deterioração das relações familiares e o desenvolvimento da trama.

 

Mesmo com os elementos de dramatização, é uma produção que demonstra cuidado na construção visual e na escolha do elenco.

 

 

Vale a pena assistir?

 

Sim, Monstro: A História de Lizzie Borden é uma série que tem seu valor, especialmente para quem gosta de produções de true crime que vão além da investigação e procuram explorar o contexto psicológico e social dos personagens.

 

É muito bem produzida, tem um elenco sensacional e apresenta uma abordagem interessante ao conectar histórias de mulheres que cometeram crimes em épocas diferentes.

 

Gostei especialmente da presença de Aileen Wuornos e da interpretação de Sarah Paulson, que considero um dos grandes acertos da temporada. A trilha sonora também contribui para dar personalidade à narrativa, e a ambientação ajuda a mergulhar naquele universo.

 

Por outro lado, a romantização dos criminosos continua sendo uma questão que me incomoda na franquia. Entendo que a intenção seja mostrar que existe uma trajetória por trás de determinados comportamentos e que ninguém se torna violento necessariamente de uma hora para outra. Porém, é preciso cuidado para que essa abordagem não transforme a compreensão em uma espécie de absolvição moral.

 

A série tem mérito justamente por levantar essas questões, ainda que nem sempre consiga equilibrar o sofrimento dos personagens com o espaço dedicado às vítimas.

 

No fim, é mais uma produção que prende a atenção, desperta curiosidade e deixa reflexões sobre violência, trauma, sociedade e responsabilidade.

 

Minha avaliação: uma série muito boa, com atuações marcantes e uma história que merece ser conhecida, mas que também pede um olhar crítico sobre a maneira como transforma criminosos reais em protagonistas de suas próprias tragédias.

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Curiosidades

1. A casa dos Borden ainda existe

A residência onde Andrew e Abby foram assassinados fica em Fall River, Massachusetts. A propriedade foi transformada em uma pousada temática, conhecida como Lizzie Borden Bed & Breakfast, e recebe visitantes interessados no famoso caso criminal.

 

2. Lizzie nunca foi condenada

Apesar de ter sido acusada e julgada pelos assassinatos do pai e da madrasta, Lizzie foi absolvida em 1893. A ausência de uma conclusão judicial definitiva ajudou a manter o caso vivo na cultura popular por mais de um século.

 

3. Aileen Wuornos já teve outra interpretação premiada

Antes de Sarah Paulson, Charlize Theron interpretou Aileen no filme Monster, de 2003. A transformação física e a atuação de Theron lhe renderam o Oscar de melhor atriz em 2004. A interpretação de Paulson apresenta uma nova leitura da mesma figura histórica, sem precisar reproduzir a abordagem do filme.

 

4. Elizabeth Báthory também faz parte da narrativa

A condessa húngara Elizabeth Báthory, que viveu entre os séculos XVI e XVII, foi acusada de torturar e matar jovens mulheres. Sua história foi ampliada por lendas ao longo dos séculos, incluindo relatos de banhos de sangue que não têm comprovação histórica. Na série, ela é uma das referências usadas para explorar a construção de figuras femininas violentas.

 

5. O caso se tornou parte do imaginário popular

A história de Lizzie foi perpetuada por uma conhecida cantiga infantil norte-americana, que faz referência aos golpes de machado. A associação entre o crime e a cultura popular contribuiu para que o caso continuasse conhecido por gerações, mesmo sem uma conclusão definitiva sobre a autoria.

 

6. A ligação entre Lizzie e Aileen foi criada para a série

Embora a produção aproxime as duas mulheres, não há registros de que Aileen Wuornos tenha se inspirado diretamente em Lizzie Borden. Essa ligação é um recurso narrativo dos criadores Ryan Murphy e Ian Brennan para explorar a violência feminina e a reação social em diferentes períodos históricos.

Curiosidades

Onde assistir?

A série está na Netflix com 8 episódios.

Avaliações

  • IMDB logo 7,7
    Rotten Tomatoes logo 38%
    PVSM logo 7,0

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#series #netflix #monstro

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