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Gabrielle

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Fauda 5: uma temporada sobre trauma, vingança e o peso da realidade

A quinta temporada pula para dois anos depois dos ataques de 7 de outubro de 2023.

História

A nova temporada começa quando uma missão de vingança conduzida por um velho conhecido de Doron, sem autorização, em Marselha, na França, acaba puxando o protagonista novamente para uma operação clandestina.

Doron precisa entrar profundamente disfarçado para enfrentar uma nova ameaça.

E a equipe precisa impedir um ataque de grandes proporções contra Israel.

História

Pode Ver Sem Medo

Atenção: este texto contém spoilers da 5ª temporada de Fauda.

 

Depois de terminar a quarta temporada de Fauda com a equipe ferida em campo, esperando pelo resgate e sem sabermos quem sobreviveria, era natural imaginar que a quinta temporada retomaria exatamente daquele ponto.

 

Mas a série faz uma escolha diferente.

 

A história salta dois anos para depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, e essa mudança de tempo também representa uma mudança de tom. Fauda continua sendo uma série de espionagem, ação e infiltração, mas sua quinta temporada é muito mais interessada nas consequências psicológicas da guerra e na maneira como o trauma transforma aqueles personagens que acompanhamos há tantos anos.

 

E talvez por isso esta seja uma das temporadas mais diferentes — e mais fortes — da série.

 


 

Dois anos depois

 

Encontramos Doron bastante diferente do homem que conhecemos.

 

Ele está fazendo terapia e sofre com problemas de memória relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático. Pela primeira vez, aquele personagem que sempre pareceu capaz de suportar qualquer situação demonstra claramente que algumas experiências deixaram marcas que não podem ser resolvidas simplesmente pegando uma arma e partindo para outra missão.

 

E Doron não é o único.

 

Eli perdeu a esposa e os filhos durante os ataques de 7 de outubro. Salem, um beduíno, também perdeu o filho naquele dia. Quando Salem descobre que o homem responsável pela morte do adolescente está escondido em Marselha, na França, procura Eli.

 

Os dois decidem ir atrás dele em busca de vingança de sangue, o tha'r.

 

E é aí que Doron entra novamente na história.

 

Ao descobrir que Eli e Salem foram para Marselha, ele decide viajar até a França para impedir que os dois façam algo que poderá colocar suas próprias vidas em risco.

 

A missão, entretanto, rapidamente revela que existe algo muito maior acontecendo.

 


 

Uma nova ameaça

 

Doron, Eli e Steve descobrem que existe uma célula do Hamas liderada por Saeed al-Khatib, um comandante que planeja um novo ataque de grande escala.

 

A investigação traz de volta alguns dos elementos que fizeram Fauda conquistar seus fãs: infiltrações, traições, reviravoltas e decisões impulsivas.

 

E existe uma revelação particularmente importante: o homem que eles estão procurando é um infiltrado, recrutado por Dana.

 

Quando Doron descobre isso, fica furioso.

 

Mas a situação se torna ainda mais pessoal quando ele finalmente confronta o responsável pela morte da família de Eli. O sorriso de escárnio do homem ao assumir o que fez é suficiente para fazer Doron perder o controle e tomar uma decisão que ele sabe que tornará a missão ainda mais perigosa.

 

É nesse momento que percebemos que, apesar de toda a terapia e de tudo que mudou, o velho Doron ainda está ali.

 

Quando alguém que ele ama está ameaçado, o agente volta a falar mais alto que o homem traumatizado.

 


 

A equipe também mudou

 

Uma das coisas que mais gostei nesta temporada é perceber que os personagens não simplesmente voltaram ao ponto de onde estavam.

 

Sagi e Nurit estão na Austrália. Steve está em Londres. Gabi agora trabalha em seu próprio escritório, longe do campo.

 

Todos tentaram construir alguma espécie de vida depois de tudo que viveram.

 

Mas basta uma nova ameaça aparecer para que o passado volte.

 

E é interessante perceber que eles já não são os mesmos personagens das primeiras temporadas.

 

Durante anos, Fauda nos mostrou esses homens entrando em situações extremas, perdendo companheiros e seguindo em frente para a próxima missão.

 

Agora a série finalmente mostra o preço disso.

 

Eles sobreviveram.

 

Mas sobreviver não significa sair ileso.

 


 

O 7 de outubro

 

É impossível falar da quinta temporada sem falar do acontecimento que mudou sua história.

 

Na manhã de 7 de outubro de 2023, o Hamas e outros grupos armados palestinos lançaram um ataque coordenado contra Israel. Foram lançados foguetes e homens armados atravessaram a fronteira, atacando comunidades, bases militares e o festival de música Nova, entre outros locais.

 

Cerca de 1.200 pessoas foram mortas e mais de 250 foram feitas reféns.

 

O ataque desencadeou a guerra em Gaza e uma nova e devastadora fase do conflito entre israelenses e palestinos.

 

E é importante lembrar que o conflito não começou em 7 de outubro. A disputa envolve décadas de história, território, identidade nacional, segurança, deslocamento de populações, ocupação, religião e o direito palestino à autodeterminação.

 

Jerusalém também possui enorme importância religiosa para judeus, muçulmanos e cristãos.

 

Mas reduzir tudo a uma guerra religiosa seria simplificar demais uma questão histórica extremamente complexa.

 

E Fauda nasce justamente desse território onde política, religião, violência e identidade se misturam.

 


 

Episódios 7 e 8: quando a série volta para aquele dia

 

É aqui que entram alguns dos momentos mais difíceis da temporada.

 

Os episódios 7 e 8 abandonam temporariamente a linha principal da narrativa e retornam para 7 de outubro.

 

Até então, o acontecimento aparecia através de lembranças, diálogos e flashes. Agora vemos o que realmente aconteceu com Doron, Eli, Steve e suas famílias.

 

Eli olha para o relógio.

 

6h29 da manhã.

 

Foguetes começam a cruzar o céu.

 

Doron e Steve se veem dirigindo por um campo enquanto jovens aterrorizados fogem do festival Nova. Eles tentam ajudar e resgatar sobreviventes, mas rapidamente percebem a dimensão daquele ataque.

 

E talvez seja justamente essa sensação de impotência que torna esses episódios tão angustiantes.

 

Doron sempre foi o homem que chega para salvar.

 

Naquela manhã, ele simplesmente não consegue chegar a tempo para todos.

 

As cenas dentro da casa de Eli são ainda mais dolorosas. Hagit, sua esposa, está escondida no mamad, o cômodo de segurança reforçado da residência, junto com os filhos adolescentes e um vizinho muçulmano, enquanto terroristas tentam entrar.

 

Eli tenta desesperadamente voltar para casa.

 

Doron também tenta chegar.

 

Mas nós sabemos que aquela história não terá um final feliz.

 

Esses episódios funcionam quase como um parêntese dentro da temporada, mas são fundamentais para compreender o estado emocional dos personagens.

 

Ao mesmo tempo, são episódios extremamente pesados e compreensivelmente não serão confortáveis para todos os espectadores.

 


 

A realidade entrou em Fauda

 

Talvez o aspecto mais perturbador da quinta temporada esteja nos bastidores.

 

A série sempre teve uma relação muito próxima com a realidade. Seus criadores, Avi Issacharoff e Lior Raz, conhecem profundamente o conflito que retratam.

 

Mas, desta vez, a realidade ultrapassou aquilo que eles haviam imaginado.

 

Antes do 7 de outubro, os criadores chegaram a considerar uma história em que terroristas atravessariam a fronteira de Gaza e tomariam uma comunidade israelense.

 

A ideia foi descartada por parecer exagerada demais.

 

Depois aconteceu o 7 de outubro.

 

Aquilo que parecia absurdo em uma série de televisão havia acontecido na vida real — e de maneira ainda mais brutal.

 

A quinta temporada precisou ser repensada.

 

E existe outra ligação dolorosa entre a produção e a guerra: Matan Meir, integrante da equipe de Fauda, morreu em Gaza em 2023 enquanto servia como reservista.

 

Idan Amedi, que interpreta Sagi, também foi convocado e ficou gravemente ferido durante o conflito, precisando se afastar da produção.

 

Por isso, assistir à quinta temporada sabendo dessas histórias torna a experiência ainda mais difícil.

 

A guerra não estava apenas no roteiro.

 

Ela também havia atingido quem fazia a série.

 


 

Doron e Eli: duas respostas para o mesmo trauma

 

Para mim, um dos melhores aspectos da temporada está justamente na relação entre Doron e Eli.

 

Os dois passaram pelo mesmo acontecimento, mas reagiram de maneiras completamente diferentes.

 

Doron tenta tratar seu trauma.

 

Eli quer vingança.

 

E não é difícil entender Eli.

 

Ele perdeu tudo.

 

Mas Fauda não transforma essa vingança simplesmente em algo heroico. Pelo contrário: mostra como ela pode alimentar exatamente o mesmo ciclo de violência que destruiu sua vida.

 

É aí que a palavra tha'r ganha importância.

 

A vingança gera outra vingança.

 

Uma pessoa mata.

 

A família do morto quer vingança.

 

Outro alguém morre.

 

E nasce uma nova vingança.

 

E o ciclo nunca termina.

 


 

E a cena final?

 

[SPOILER DO FINAL]

 

Para mim, uma das imagens mais fortes da temporada é Doron lavando as mãos.

 

Ele está ali, em silêncio.

 

E lágrimas caem.

 

É uma cena simples, mas acho que resume toda a trajetória do personagem.

 

Doron pode lavar o sangue das mãos.

 

Pode terminar uma missão.

 

Pode guardar a arma.

 

Mas não consegue simplesmente lavar aquilo que viveu.

 

As mortes continuam dentro dele.

 

As perdas continuam.

 

O trauma continua.

 

E existe ainda uma interpretação que considero muito forte: suas mãos nunca estarão realmente limpas enquanto o ciclo continuar.

 

Porque quando Doron mata alguém, outras pessoas ficam querendo vingança.

 

E quando essas pessoas matam...

 

outras vão querer vingança delas.

 

A guerra continua produzindo novos motivos para a próxima guerra. E Doron sabe que não vai conseguir parar!

 


 

Minha impressão sobre a 5ª temporada de Fauda

 

Eu gostei muito desta temporada justamente porque ela não tenta simplesmente repetir a fórmula das anteriores.

 

Claro que temos ação.

 

Temos infiltrações, tiroteios, perseguições, agentes duplos e todas aquelas situações absurdas nas quais Doron consegue sobreviver quando qualquer pessoa normal já estaria morta.

 

Mas o que realmente me interessou foi perceber que a série finalmente olha para as consequências.

 

Nas primeiras temporadas, acompanhávamos homens que pareciam quase indestrutíveis.

 

Agora vemos homens que estão quebrados.

 

Doron não é mais o mesmo.

 

Eli não é mais o mesmo.

 

Steve não é mais o mesmo.

 

Gabi também carrega as marcas de tudo que aconteceu.

 

E isso dá à temporada uma dimensão muito mais humana.

 

E podemos perceber claramente que Eli já estava morto por dentro, e como Yaakov Zada-Daniel está ainda mais incrível no papel, você vê a mudança no olhar dele, na vibe sabe... você consegue sentir que ele é outra pessoa e talvez porque sentimos o tempo todo o que ele está sentindo ali, pelo menos pra mim, a morte dele foi quase um alivio, ele precisava partir dali!

 

É o peso emocional dessa temporada presente o tempo todo minha gente!

 


 

Fauda continua sendo uma série de vingança?

 

Talvez sim.

 

Mas acho que a quinta temporada tenta mostrar que vingança e justiça não são a mesma coisa.

 

A vingança pode ser compreensível.

 

Pode nascer de uma dor legítima.

 

Mas isso não significa que ela consiga produzir paz.

 

E esse é justamente o paradoxo de Fauda.

 

A série mostra homens que passam a vida tentando proteger outras pessoas usando a violência.

 

Só que a violência também cria novos inimigos.

 

E novos inimigos criam novas perdas.

 

No final, alguém sempre está procurando vingança.

 


 

A temporada que a série nunca quis produzir

 

Talvez seja essa a melhor maneira de resumir a quinta temporada.

 

Fauda sempre foi uma série muito próxima da realidade.

 

Mas, depois de 7 de outubro, seus criadores precisaram encarar uma situação na qual a realidade se tornou mais brutal do que a própria ficção.

 

Por isso, a quinta temporada parece menos interessada em mostrar apenas uma nova missão de Doron e mais preocupada em perguntar:

o que acontece com alguém depois de sobreviver à guerra?

 

E talvez a resposta esteja naquela última imagem.

 

Doron lava as mãos.

 

Mas as lágrimas continuam caindo.

 

Porque talvez seja impossível sair completamente limpo de um conflito em que cada morte cria uma nova razão para matar.

 

A guerra pode terminar uma missão.

 

Mas não necessariamente termina dentro das pessoas.

 

E é justamente por isso que considero a quinta temporada de Fauda uma das mais fortes da série: não por ser a mais explosiva, mas por ser aquela que finalmente nos faz olhar para o que existe depois da explosão.

Pode Ver Sem Medo

Onde assistir?

A 5ª temporada está na Netflix com 11 episódios.

Avaliações

  • IMDB logo 8,3
    Rotten Tomatoes logo 100%
    PVSM logo 9,0

Tags:

#series #netflix #fauda #fauda5

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