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O Agente Secreto (2025) - Um mosaico inquietante do Brasil de 1977
Em 1977, um especialista em tecnologia foge de um passado misterioso e retorna à sua cidade natal, Recife, em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procurava.
Personagens
Marcelo (Wagner Moura) – Ex-agente de inteligência, brilhante, instável e moralmente ambíguo.
Um poderoso industrial, Ghirotti (Luciano Chirolli).
Capangas, Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela).
Dona da hospedaria de refugiados, Sebastiana (Tânia Maria).
História
Brasil, 1977. Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos 40 anos, está foragido. Na esperança de reencontrar seu filho, ele viaja para Recife durante o Carnaval, mas logo percebe que a cidade não é o refúgio seguro que esperava. Vencedor dos prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator em Cannes.
Pode Ver Sem Medo
Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, O Agente Secreto é um daqueles filmes que não querem apenas contar uma história — querem reconstruir um clima.
E o clima aqui é sufocante.
Estamos em 1977. Ditadura militar. Um Brasil onde o absurdo virou rotina e a violência se disfarça de normalidade.
A abertura: o retrato de um país
Um posto de gasolina à beira de uma estrada rural.
Um corpo ensanguentado abandonado na brita, coberto por um pedaço de papelão. Moscas circulam. Cães vadios tentam se aproximar. O frentista espanta os animais, mas não chama a polícia.
O motivo?
Carnaval em Recife. Todo mundo “ocupado demais”.
Quando dois policiais aparecem, passam direto pelo cadáver e resolvem revistar o carro de um homem que abastece ali: Armando — ou Marcelo, dependendo de quem pergunta.
Eles tentam extorqui-lo por uma “doação”. Aceitam um maço de cigarros quase vazio e vão embora. O corpo continua ali.
Essa sequência diz mais sobre o estado autoritário do que qualquer discurso político.
Quem é Armando? Quem é Marcelo?
Marcelo (Moura) dirige ao som de “If You Leave Me Now”, da banda Chicago, enquanto o filme começa a revelar suas camadas.
Ele chega a um prédio administrado por Dona Sebastiana (Tânia Maria), uma senhora espirituosa que abriga refugiados políticos. É ali que descobrimos seu nome verdadeiro: Armando.
Por que ele está escondido?
Por que precisa de outra identidade?
O filme não responde de imediato — e essa é a sua estratégia.
Marcelo é um cientista pesquisador que entrou em conflito com um poderoso industrial, Ghirotti (Luciano Chirolli). Um homem rico, influente e muito provavelmente alinhado ao governo. Ghirotti contrata dois capangas, Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela), para localizá-lo e eliminá-lo.
A perseguição é silenciosa. Não há grandes explosões. Há vigilância, tensão e uma sensação constante de que algo está prestes a acontecer.
Tubarão, infância e medo
Enquanto Marcelo se esconde, conhecemos seu filho, Fernando (Enzo Nunes), que vive com os avós maternos após a morte da mãe por pneumonia, pelo menos é o que dizem ao menino (descobriremos mais tarde ser mais uma vítima da ditadura).
Fernando é obcecado por Tubarão. Ele desenha sua versão do famoso pôster, mesmo sem ter visto o filme — o avô projecionista considera que ele é jovem demais para isso.
E então o filme nos entrega uma das imagens mais surreais:
Um tubarão numa mesa de autópsia em Recife, com uma perna humana dentro dele.
Sim.
A subtrama da perna é absurda, quase cômica, baseada em fatos reais e funciona como alegoria perfeita:
um país sendo devorado por algo maior — e ninguém realmente querendo olhar para dentro.
Um mosaico fragmentado
O Agente Secreto não é linear. Ele é um mosaico.
Há:
- Flashbacks emocionais que explicam o conflito com Ghirotti
- Referências a A Profecia
- Ecos do remake de King Kong
- Influências de Brian De Palma e Robert Altman
- Uma participação marcante de Udo Kier (em um de seus últimos papéis no cinema)
- Um encontro com um líder de esquerda
- Um romance casual
- Uma cena belíssima envolvendo os refugiados do prédio
Tudo parece desconexo à primeira vista. Mas há um propósito: retratar um Brasil onde as histórias nunca se fecham completamente.
Produção impecável
Se há algo incontestável é o cuidado técnico.
- Direção de arte minuciosa
- Figurinos perfeitamente datados
- Trilha sonora que nos transporta para 1977
- Recife recriada com textura e atmosfera
Você se sente naquele ano — sem didatismo, sem exagero.
É cinema de reconstrução histórica com identidade autoral.
Temáticas
Estado autoritário e normalização da violência
O corpo no posto é ignorado. A corrupção é banal. A extorsão é rotina.
Ciência vs Poder
Marcelo representa conhecimento. Ghirotti representa influência política e econômica.
Memória e apagamento
Histórias que nunca foram totalmente contadas. Arquivos que podem ou não existir.
O medo como metáfora
O tubarão é mais que referência pop. É o perigo invisível que ronda uma geração inteira.
Crítica e opinião
O filme é, sem dúvida, muito bem produzido.
É elegante.
É sofisticado.
É politicamente consciente.
Mas aqui entra minha opinião sincera:
O ritmo é excessivamente lento.
A sensação constante é a de montar um quebra-cabeça cujas peças nunca se encaixam completamente.
Entendo a proposta. Entendo a estética fragmentada. Mas emocionalmente, em alguns momentos, o filme parece distante.
Assim como Ainda Estou Aqui, vale como recorte de uma das épocas mais sombrias do Brasil — uma entre tantas histórias esquecidas.
Não é um thriller convencional.
Não é um filme de respostas fáceis.
É um retrato desconfortável de um país onde o absurdo era cotidiano.
Vale a pena?
Sim — especialmente se você aprecia cinema autoral e político.
Mas vá preparado para:
- Ritmo contemplativo
- Narrativa fragmentada
- Silêncios que dizem mais do que diálogos
O Agente Secreto não quer entreter.
Quer provocar.
E talvez, num país onde muita coisa foi varrida para debaixo do tapete, provocar ainda seja a forma mais honesta de lembrar.
Curiosidades
O papel de Sebastiana foi escrito especificamente para Tânia Maria. Seu nome verdadeiro é Sebastiana, assim como o da personagem. Ela também fuma há mais de 65 anos. Sua participação neste filme aconteceu após sua aclamada atuação como figurante no filme anterior do diretor Kleber Mendonça Filho, Bacurau. Depois disso, ela foi convidada a participar de outros projetos ligados ao diretor, incluindo o filme Seu Cavalcanti e a futura série Delegado.
Com o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes, Wagner Moura tornou-se o primeiro ator brasileiro a ganhar um prêmio de atuação no festival; e o terceiro ator brasileiro no geral - depois de Fernanda Torres por Eu Sei Que Vou Te Amar (1986) e Sandra Corveloni por Linha de Passe (2008).
O filme Tubarão (1975), de Steven Spielberg, que é referenciado no longa, foi coincidentemente relançado (devido ao seu 50º aniversário) nos cinemas brasileiros ao mesmo tempo em que O Agente Secreto estava em cartaz. Em muitas salas de cinema, trailers de Tubarão (1975) foram exibidos antes das sessões de O Agente Secreto, criando uma ligação inesperada entre os dois filmes.
A cena do tubarão com uma perna humana dentro do estômago foi parcialmente inspirada em Tubarão (1975), de Steven Spielberg, um filme que Kleber Mendonça Filho admira muito e que se tornou um marco cultural da década de 1970 e continua sendo discutido até hoje. A referência também o conecta pessoalmente, já que sua cidade natal, Recife, enfrenta problemas reais relacionados a tubarões.
Filmado durante 10 semanas, de junho a agosto de 2024, em locações em Recife, Brasília e São Paulo. A edição foi realizada em Recife durante oito meses, a partir de agosto de 2024.
Onde assistir?
O filme está nos cinemas e em algumas plataformas digitais.
Avaliações
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6,5
Tags:
#filmes #cinemanacional #dramaVisualizações:
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