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O Último Azul (2025) - envelhecer, resistir e sonhar em uma distopia amazônica
Para maximizar a produtividade econômica, o governo ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Tereza, 77, se recusa - em vez disso, embarca em uma jornada pela Amazônia que mudará seu destino para sempre.
Personagens
- Tereza (Denise Weinberg) – A protagonista, uma idosa forte, curiosa e cheia de vida, que se recusa a aceitar a submissão e o etarismo da sociedade.
- Cadu (Rodrigo Santoro) – Um enigmático barqueiro que cruza o caminho de Tereza e funciona como catalisador para parte de sua transformação.
- Roberta (Miriam Socarrás) – Uma freira de personalidade intrigante que adiciona profundidade à trama.
- Ludemir (Adanilo) – Homem marcado por escolhas difíceis e vícios, representando outro lado da resistência humana às pressões sociais.
- Joana (Clarissa Pinheiro) – Contribui para o universo de encontros e relações que moldam a jornada de Tereza.
História
O Último Azul é um filme brasileiro de drama e ficção científica que se passa em um futuro distópico no Brasil. Nessa realidade, o governo instituiu uma política que força pessoas idosas a deixarem suas casas e se mudarem compulsoriamente para colônias habitacionais, sob o pretexto de garantir bem-estar social — mas, na verdade, as relega a um “exílio” longe de suas vidas e escolhas. A protagonista Tereza tem 77 anos e recusa esse destino imposto. Em vez disso, parte em uma jornada pelos rios da Amazônia, uma travessia que mistura aventura, resistência, fantasia e reflexão sobre o significado de envelhecer com dignidade e autonomia.
Pode Ver Sem Medo
Gabriel Mascaro, de Boi Neon (2015) e Divino Amor (2019), sempre foi um diretor interessado em corpos, desejos e em como a política atravessa nossas experiências mais íntimas. Seu cinema nunca separa o individual do coletivo: o afeto é político, o corpo é território de disputa, o desejo é atravessado por normas sociais.
Em O Último Azul, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, Mascaro leva essa inquietação para um território inusitado: uma distopia amazônica em que idosos são obrigados pelo Estado a viver isolados, afastados da sociedade sob a justificativa de cuidado e eficiência. É nesse cenário que acompanhamos Tereza (Denise Weinberg), 77 anos, em fuga para realizar um último sonho aparentemente simples: voar de avião.
A premissa pode soar fútil à primeira vista, mas Mascaro transforma esse ponto de partida em uma narrativa que mistura fantasia, resistência e descoberta, propondo uma reflexão sensível — e incômoda — sobre envelhecer em um mundo que já decidiu quem é útil e quem deve ser descartado.
Um coming of age tardio
O Último Azul se estrutura como um coming of age tardio. Em vez da adolescência, é a velhice que ganha contornos de aprendizado, desejo e transformação. Tereza não está encerrando sua história: ela ainda está em movimento, errando, descobrindo e querendo algo para si.
Ao longo de sua jornada pelos rios da Amazônia, a protagonista é confrontada com limites físicos, encontros inesperados e situações que a obrigam a repensar sua relação com o mundo e com o próprio corpo. Mascaro devolve à terceira idade um protagonismo raramente visto no cinema: a possibilidade de ainda mudar, de ainda desejar, de ainda sonhar.
Existe aqui um gesto político potente: negar a ideia de que envelhecer é apenas sobreviver ao tempo. Para Mascaro, envelhecer também pode ser experiência, não apenas memória.
A Amazônia como espaço simbólico
A escolha da Amazônia não é apenas estética. O filme transforma o território em um espaço de transição, quase mítico, onde realidade e fantasia se misturam. A floresta, os rios e os personagens que surgem no caminho de Tereza funcionam como símbolos de um Brasil esquecido, mas ainda vivo, resistente e cheio de contradições.
Nesse aspecto, O Último Azul dialoga com o realismo mágico, usando a fantasia como linguagem política. A distopia criada por Mascaro não parece tão distante assim — ela ecoa debates contemporâneos sobre produtividade, envelhecimento, descarte social e políticas públicas que tratam pessoas como números.
Atuação, estética e intenção
Denise Weinberg entrega uma atuação contida, silenciosa, construída muito mais no gesto do que na palavra. Tereza é uma personagem que observa mais do que explica, e isso está alinhado à proposta contemplativa do filme. A fotografia aposta em planos longos, ritmo pausado e enquadramentos que reforçam o isolamento da personagem diante do mundo.
Tudo em O Último Azul parece pensado para provocar reflexão, não para oferecer respostas fáceis.
Quando a fantasia se sobrepõe demais
Apesar de toda a crítica positiva e do reconhecimento internacional, O Último Azul não me fisgou por completo.
A ideia é ousada, a mensagem é válida e necessária, mas, para mim, o filme se perde no excesso de fantasia e metáfora, especialmente no final. Em vez de aprofundar emocionalmente a trajetória de Tereza, a narrativa parece se afastar dela, tornando o desfecho mais etéreo do que impactante.
A protagonista, embora interessante em conceito, não despertou tanta empatia em alguns momentos. Faltou uma conexão mais forte, uma camada emocional que tornasse sua jornada menos abstrata e mais visceral. A sensação é de que o filme confia tanto no símbolo que acaba esvaziando parte do afeto.
Um cinema necessário, mesmo com ressalvas
Ainda assim, O Último Azul é um filme importante para o cinema nacional. Ele propõe algo raro: colocar a terceira idade no centro da narrativa, não como lembrança do passado, mas como espaço legítimo de liberdade, desejo e escolha.
Mesmo com suas fragilidades, o filme levanta uma questão fundamental:
quem decide como devemos envelhecer?
Mascaro não oferece conforto. Ele provoca, incomoda e convida à reflexão. O Último Azul talvez não seja um filme que agrade a todos, mas é certamente um filme que precisa existir — especialmente em um país que insiste em invisibilizar seus idosos.
Curiosidades
Um dos seis filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer a uma vaga de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2026.
O Último Azul venceu o Grande Prêmio do Júri (Silver Bear) no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, um dos mais prestigiados festivais do mundo, mostrando a força do cinema brasileiro no cenário global.
O filme utiliza o formato 4:3, evocando sensações de memória e tradição, além de reforçar o tom contemplativo e poético da história.
Onde assistir?
O filme está na Netflix.
Avaliações
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Tags:
#filmes #drama #cinemanacionalVisualizações:
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