Séries
A quinta temporada de Fauda chega carregando um peso diferente de todas as anteriores. A série israelense sempre esteve muito próxima da realidade. Criada por Avi Issacharoff e Lior Raz, ambos com experiências ligadas ao serviço militar e ao conflito no Oriente Médio, Fauda construiu sua identidade justamente nessa fronteira entre ficção e acontecimentos que poderiam estar nas manchetes. Mas, desta vez, a realidade foi além de qualquer roteiro que seus criadores imaginassem. A nova temporada nasceu em meio ao trauma provocado pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e à guerra que veio depois. E existe algo particularmente perturbador nisso: algumas das situações que Fauda havia imaginado como ficção passaram a parecer pequenas diante do que realmente aconteceu. Uma temporada marcada pela perda Um dos episódios mais dolorosos envolvendo a produção foi a morte de Matan Meir, integrante da equipe de Fauda. Matan tinha 38 anos e servia como reservista no 697º Batalhão da Brigada 551. Ele morreu em Gaza, em novembro de 2023. Até então, seu nome era conhecido principalmente nos bastidores da série. De repente, alguém que fazia parte daquela família de produção passou a aparecer nas manchetes. E não foi a única ligação entre Fauda e a guerra. Idan Amedi, cantor e compositor conhecido internacionalmente pelo personagem Sagi na série, também foi convocado como reservista. Em janeiro de 2024, sofreu graves ferimentos e queimaduras provocados por uma explosão em Gaza que matou seis de seus colegas. Durante sua recuperação, Amedi precisou deixar a quinta temporada. É impossível assistir à nova fase da série sem saber disso. A sensação é de que, desta vez, Fauda não está apenas contando uma história sobre guerra. A própria produção foi atingida por ela. O roteiro que parecia impossível Talvez um dos detalhes mais impressionantes revelados por Avi Issacharoff seja o de que os criadores chegaram a discutir uma história em que terroristas atravessariam a fronteira de Gaza e tomariam uma comunidade israelense. Lior Raz acreditava que aquela seria a pior coisa que poderia acontecer a Israel. Avi, porém, considerou a ideia irrealista e descartou o enredo. Depois de 7 de outubro, aquela decisão passou a persegui-lo. É um daqueles casos em que a realidade torna a ficção quase impossível de sustentar. O que antes parecia exagerado demais para uma série de televisão havia acontecido de uma maneira ainda mais brutal. Deveriam mostrar o 7 de outubro? Esse foi um dos grandes dilemas enfrentados pelos criadores. A equipe discutiu se seria cedo demais para representar aqueles acontecimentos. Afinal, havia pessoas mortas, famílias diretamente afetadas e uma população que ainda estava vivendo as consequências daquele dia. Mesmo assim, decidiram que não poderiam simplesmente ignorar o acontecimento. A quinta temporada dedica dois episódios aos eventos de 7 de outubro e traz um aviso de conteúdo sensível. E aqui está uma das características mais importantes de Fauda: a série nunca foi exatamente uma produção de ação distante da realidade. Ela nasceu do conflito. Por isso, para seus criadores, fingir que 7 de outubro não aconteceu seria praticamente impossível. Doron também carrega o trauma A nova temporada começa dois anos depois dos acontecimentos de 7 de outubro. Doron Kabilio, personagem de Lior Raz, está emocionalmente fragilizado e fazendo terapia para tratar o transtorno de estresse pós-traumático. É uma mudança importante para um personagem que sempre foi apresentado como alguém capaz de suportar situações extremas. Dessa vez, o inimigo não está apenas do lado de fora. Existe também aquilo que ficou dentro dele. E essa escolha aproxima ainda mais a ficção da realidade de milhares de pessoas que passaram por experiências traumáticas durante o conflito. O encontro assustador entre Fauda e a vida real Pouco depois dos ataques, Lior Raz e Avi Issacharoff foram para o sul de Israel com Yohanan Plesner para ajudar a resgatar duas famílias em Sderot. Em determinado momento, uma família aterrorizada abriu a porta e encontrou Lior Raz. Para aquelas pessoas, ele não era exatamente Lior. Era Doron. O personagem que elas conheciam da televisão estava ali, diante delas, armado e vivendo uma situação que até então pertencia ao universo da série. Quando Lior explicou que era o ator, veio uma resposta ainda mais perturbadora:“E agora é real. Isso é a vida real.” Talvez poucas frases expliquem tão bem o espírito da quinta temporada. Vingança como tema A palavra que atravessa a nova temporada é tha’r, termo árabe associado à vingança de sangue. E não poderia haver conceito mais adequado para uma história construída em meio a tanta perda. Fauda, que significa “caos” em hebraico, sempre trabalhou com ciclos de violência, vingança e retaliação. Mas agora esses conceitos ganham uma dimensão diferente. O luto está em praticamente todos os níveis da produção: na história, nos personagens, nos atores e até nos bastidores. Mélanie Laurent entra em um território diferente A quinta temporada também apresenta uma novidade importante no elenco: Mélanie Laurent, conhecida por interpretar Shosanna Dreyfus em Bastardos Inglórios. Sua presença é especialmente interessante porque os criadores decidiram levá-la para uma direção completamente diferente. Ela interpreta Anne Aubert, uma francesa que vive em Marselha e é casada com um palestino. A personagem representa uma visão europeia bastante diferente daquela que normalmente encontramos na série e acaba entrando justamente no universo de vingança e busca pela verdade que domina a temporada. Para Mélanie, a participação também ganhou uma dimensão pessoal. Durante as filmagens, que coincidiram com ataques iranianos, ela chegou a morar durante cerca de um mês com Lior Raz e sua família. Todos os dias havia a preocupação com os abrigos de segurança. A atriz chegou a dizer que Lior a protegeu “como Doron”. É uma daquelas situações em que a separação entre ator e personagem novamente parece desaparecer. A realidade também mudou quem estava diante das câmeras Outro aspecto interessante da quinta temporada é a participação de atores árabes em uma história que aborda diretamente os acontecimentos de 7 de outubro. Segundo Avi, houve preocupação e discussão sobre essa participação. Os atores que aceitaram fazer parte da temporada precisaram lidar com personagens e situações extremamente delicadas. A justificativa dada pelo criador é que eles acreditavam na mensagem que estavam transmitindo: a condenação da violência e daquilo que aconteceu naquele dia. Essa é uma questão que torna a quinta temporada particularmente complexa. Fauda sempre trabalhou com personagens judeus e árabes, evitando transformar todos os lados em figuras completamente homogêneas. E justamente por isso a nova temporada chega cercada de discussões políticas e humanas que ultrapassam o entretenimento. Avi Issacharoff e uma relação complicada com a política Avi Issacharoff não esconde suas posições políticas. Ele afirma ser crítico do governo israelense e diz esperar uma mudança política no país. Ao mesmo tempo, defende uma visão bastante dura sobre o Hamas e separa explicitamente o grupo da religião islâmica. Esse posicionamento ajuda a entender por que a quinta temporada não pretende ser uma produção neutra ou distante dos acontecimentos. Fauda nasceu das experiências de seus criadores e continua sendo profundamente influenciada por elas. Isso pode ser um ponto forte para alguns espectadores e uma fonte de controvérsia para outros. Quando a série vira um reflexo da realidade Talvez o aspecto mais interessante de tudo isso seja perceber como Fauda mudou. A série sempre foi sobre o caos. Sempre foi sobre homens infiltrados, operações secretas, terrorismo, vingança, medo e consequências. Mas a quinta temporada chega depois de um acontecimento que mudou a realidade de seus próprios criadores. Matan Meir morreu durante a guerra. Idan Amedi ficou gravemente ferido. Lior Raz e Avi Issacharoff foram para o sul ajudar famílias reais. Atores precisaram interpretar acontecimentos que ainda estavam muito próximos de suas próprias vidas. E uma história que parecia absurda demais para ser escrita acabou se tornando realidade. Por isso, talvez seja melhor pensar na quinta temporada de Fauda não apenas como uma continuação. Ela é também um registro de como um acontecimento histórico atravessou uma produção de ficção e alterou a maneira como seus próprios criadores enxergavam suas histórias. A pergunta que fica é se uma série como Fauda consegue representar uma realidade tão brutal sem transformar o sofrimento em espetáculo. A resposta provavelmente será diferente para cada espectador. Mas uma coisa parece certa: essa é a temporada que seus criadores nunca imaginaram precisar produzir.
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