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Profundezas, da Netflix: crítica, história e tudo sobre a minissérie da lula gigante
Quando uma misteriosa criatura marinha aterroriza uma cidade remota, um pescador deve lutar para proteger sua família, sua comunidade e seu modo de vida.
História
Na remota cidade costeira de Snooks Arm, Newfoundland, o pescador Calvin Penney ainda é assombrado pela misteriosa morte de seu pai décadas antes. Quando uma estranha chegada do mar é seguida por uma série de eventos perturbadores, Calvin se vê enfrentando uma ameaça diferente de tudo que a comunidade já enfrentou. Quando uma criatura marinha não identificada começa a aterrorizar a área, Calvin une forças com a pesquisadora marinha Dra. Fonda Howander para investigar o que está acontecendo sob a água. Com sua família presa no meio e o futuro de sua comunidade em dificuldades já incerto, Calvin deve enfrentar tanto o perigo emergente do oceano quanto os segredos que permaneceram enterrados por gerações.
Pode Ver Sem Medo
Uma pequena comunidade pesqueira, segredos enterrados há décadas, mortes misteriosas e uma lula gigantesca que surge das profundezas. A premissa de Profundezas, minissérie canadense da Netflix, é daquelas que imediatamente despertam curiosidade. E, embora a produção tenha algumas boas ideias e consiga criar uma atmosfera bastante interessante, ela também acaba entregando menos do que promete.
Ainda assim, gostei bastante da série.
O ritmo é mais lento, alguns elementos parecem existir apenas para prolongar uma história que provavelmente funcionaria melhor com menos episódios, e o desfecho não chega a corresponder totalmente à expectativa criada ao longo da narrativa. Mas Profundezas tem uma qualidade que me agrada muito: a sensação de que existe alguma coisa profundamente errada em uma pequena cidade costeira onde todo mundo parece esconder algum segredo.
E, para quem gosta desse tipo de mistério, vale a pena conferir.
Uma cidade que não quer desaparecer
A história se passa em Snook's Arm, uma pequena comunidade pesqueira de Terra Nova, no Canadá. É um daqueles lugares isolados em que as pessoas se conhecem há gerações, as famílias estão profundamente conectadas e o passado parece estar sempre presente.
No centro da história está Calvin Penny, interpretado por Josh Hartnett, um pescador que ainda carrega o trauma da morte do pai, ocorrida 40 anos antes.
Na época, o pai de Calvin estava transportando a casa da família rio abaixo, usando um barco. A mudança fazia parte do Programa de Reassentamento de Terra Nova, iniciativa inspirada em acontecimentos reais que oferecia compensações financeiras para que famílias de comunidades pesqueiras remotas se mudassem para cidades maiores.
A justificativa do governo era basicamente econômica: manter aquelas pequenas comunidades era considerado caro demais.
Para a família de Calvin, porém, o processo termina de maneira trágica.
A casa afunda, seu pai morre afogado e Calvin fica marcado por uma imagem que jamais consegue esquecer: um olho gigantesco, do tamanho da calota de um caminhão, flutuando na água pouco antes do desastre.
Quarenta anos depois, Calvin ainda vive na região.
E pouca coisa mudou.
Ele se tornou um pescador robusto e passa os dias trabalhando em seu barco, recolhendo blocos de gelo de geleiras próximas para vender a destilarias de vodka. Ao mesmo tempo, o governo volta a pressionar os moradores de Snook's Arm para que deixem a comunidade e se mudem para uma cidade maior.
Só que, dessa vez, os moradores não querem partir.
Ou, pelo menos, a maioria deles não quer.
É interessante como a série utiliza esse conflito para estabelecer uma das suas principais questões: o que significa abandonar uma comunidade que faz parte da identidade de uma família há gerações?
Para algumas pessoas, a proposta representa uma oportunidade de ganhar dinheiro. Há indivíduos gananciosos e pouco escrupulosos dispostos a enxergar a possível desapropriação como um negócio.
Para Calvin e sua família, porém, a história é outra.
Eles enxergam aquilo como uma repetição do passado — e como mais uma tentativa de dizer que aquele lugar, aquelas pessoas e aquela história não têm valor suficiente para justificar sua permanência.
E então as pessoas começam a morrer
Se a série estivesse interessada apenas no conflito entre uma comunidade tradicional e interesses econômicos, já teríamos um drama interessante.
Mas Profundezas quer mais.
Muito mais.
As coisas começam a ficar estranhas quando Wade (Charlie Heaton), filho de Calvin, presencia seu capitão ser vítima de marés que parecem se comportar de maneira completamente antinatural.
Depois, turistas desaparecem após acamparem perto do rio.
E então aparece uma das imagens mais interessantes da série: um alce inteiro é arrastado para fora da água, parcialmente digerido.
A pergunta é inevitável:
que criatura seria grande o suficiente para devorar um alce inteiro?
É aí que entra Fonda Howander, interpretada por Mackenzie Davis, uma pesquisadora marinha que trabalha em uma instalação nas proximidades.
Enquanto Calvin tenta entender o que está acontecendo com sua comunidade, Fonda procura uma explicação científica para os acontecimentos.
E a resposta é, ao mesmo tempo, absurda e maravilhosa:
é uma lula.
Uma lula gigantesca.
E ela está furiosa.
O melhor da série é justamente o mistério
Uma das coisas que mais gostei em Profundezas é a maneira como a série demora para revelar aquilo que está acontecendo.
Existe uma sensação constante de que alguma coisa está escondida debaixo da superfície — literalmente e metaforicamente.
A cidade tem seus segredos. As famílias têm seus segredos. O governo tem seus interesses. As empresas têm seus interesses. E, no meio disso tudo, existe uma criatura que parece ter uma relação muito mais complexa com aquela região do que simplesmente “um monstro apareceu e começou a matar pessoas”.
Essa atmosfera funciona muito bem.
Se você gostou de Widow's Bay, por exemplo, provavelmente vai encontrar aqui alguns elementos familiares: comunidades costeiras isoladas, moradores que sabem mais do que dizem, histórias antigas, acontecimentos inexplicáveis e a sensação de que aquela cidadezinha aparentemente pacata esconde algo bastante obscuro.
É esse aspecto que considero um dos maiores acertos de Profundezas.
Bons personagens, mesmo quando a trama se dispersa
Josh Hartnett funciona muito bem como Calvin.
O personagem é um homem marcado por uma tragédia ocorrida quatro décadas antes, mas que não ficou simplesmente preso ao passado. Ele construiu uma vida naquela comunidade, tornou-se pescador e criou uma família.
Só que o passado nunca desapareceu completamente.
A presença de Wade também é importante. Interpretado por Charlie Heaton, o filho de Calvin é um rapaz que parece sempre disposto a agradar os outros e que acaba envolvido diretamente nos acontecimentos.
Já Mackenzie Davis traz para a série uma personagem que funciona como contraponto ao núcleo familiar: Fonda é a pessoa que tenta entender racionalmente aquilo que está acontecendo.
O elenco consegue sustentar bem a história, mesmo quando o roteiro começa a abrir caminhos demais.
E esse é um dos problemas da série.
O problema: tem coisa demais acontecendo
Profundezas tem aproximadamente quatro horas de história para contar, distribuídas em episódios relativamente curtos.
E, em alguns momentos, dá para perceber claramente que a narrativa está criando obstáculos simplesmente para ganhar tempo.
Temos, por exemplo, toxinas presentes no gelo, que provocam uma sede insaciável. Há também cicatrizes estranhas, alucinações e outros acontecimentos que aumentam o mistério, mas nem sempre acrescentam algo realmente importante à trama principal.
Também existe um melodrama envolvendo a família estendida de Calvin.
A filha aparece com o namorado para conhecer a família justamente no pior momento possível.
O filho mais novo está endividado com pessoas perigosas.
A irmã de Calvin considera aceitar a oferta do governo e abandonar Snook's Arm.
Tudo isso poderia funcionar em uma série mais longa e interessada em desenvolver profundamente cada personagem.
Mas, aqui, acaba parecendo um conjunto de pequenas histórias paralelas criadas para ocupar espaço entre um acontecimento importante e outro.
E, no fundo, muita coisa disso é irrelevante.
Porque o que queremos saber é outra coisa:
o que diabos está acontecendo naquela água?
E aqui chegamos ao problema da lula
Esse é provavelmente o ponto em que minhas expectativas começaram a entrar em conflito com o que a série realmente queria ser.
Porque Profundezas vende uma ideia muito divertida: uma comunidade costeira isolada sendo aterrorizada por uma lula gigantesca.
E eu queria mais disso.
Muito mais.
Depois de construir toda aquela expectativa em torno da criatura, a série acaba recuando para um terreno mais seguro. A lula continua sendo importante, mas a história passa a investir cada vez mais em uma trama conspirativa envolvendo interesses econômicos e uma grande empresa mineradora.
E aí fica aquela sensação de:
“Mas eu queria ver a lula!”
Não que a conspiração seja ruim. O problema é que ela é muito menos interessante do que a promessa inicial.
A criatura é justamente o elemento que diferencia Profundezas de tantos outros mistérios sobre comunidades pequenas, empresas gananciosas e conspirações governamentais.
Quando a série se afasta dela, perde um pouco da sua identidade.
A série prepara muito — e entrega pouco
Esse talvez seja o maior problema de Profundezas.
A produção é muito boa em preparar o terreno.
Ela cria perguntas.
Apresenta imagens estranhas.
Sugere acontecimentos sobrenaturais.
Mostra comportamentos inexplicáveis.
Introduz personagens que sabem mais do que deveriam.
Cria uma ameaça gigantesca.
E faz você querer descobrir o que está por trás de tudo.
Só que, quando chega a hora de entregar algumas das respostas, o resultado é menos impactante do que poderia ser.
Não acho que seja uma série ruim.
Muito pelo contrário.
Ela é divertida, tem bons personagens, uma atmosfera interessante e uma premissa excelente.
Mas existe uma diferença entre uma história que deixa algumas coisas sem resposta porque quer preservar o mistério e uma história que parece ter criado perguntas demais para aquilo que realmente pretende responder.
Profundezas às vezes fica no segundo grupo.
Mas o monstro não é tão monstro assim
E existe outro aspecto que gostei bastante.
A criatura não é simplesmente apresentada como um monstro genérico que existe para matar pessoas.
Conforme a história avança, nossa percepção sobre ela muda.
E isso é interessante porque desloca um pouco a pergunta.
Em vez de simplesmente:
“Como vamos matar essa coisa?”
começamos a pensar:
“O que essa criatura realmente representa dentro dessa história?”
E é aí que Profundezas encontra algumas de suas melhores ideias.
A série fala sobre exploração, ganância, abandono de comunidades, interferência humana no ambiente e sobre como muitas vezes aquilo que chamamos de “monstro” pode ser apenas uma consequência de algo que nós mesmos provocamos.
Vale a pena assistir?
Para mim, sim.
Mas com expectativas moderadas.
Profundezas é uma série que diverte muito mais quando você aceita que ela não vai necessariamente entregar exatamente a história que a premissa parece prometer.
Se você estiver esperando um grande thriller de criatura marinha, talvez termine querendo mais lula.
E eu definitivamente terminei querendo mais lula.
Mas se você gosta de histórias sobre pequenas cidades costeiras cheias de segredos, famílias complicadas, mistérios antigos, conspirações e uma atmosfera de que existe alguma coisa errada por trás daquela paisagem bonita, acho que vale bastante a pena.
Eu gostei bastante da série justamente por essa atmosfera.
O ritmo é mais lento, algumas tramas paralelas parecem artificiais e o desfecho poderia ser muito mais ousado. A produção canadense aposta bastante na preparação, cria uma ótima expectativa e depois entrega algo mais convencional do que eu gostaria.
Mas funciona.
E, entre uma cidadezinha cheia de segredos, uma criatura gigantesca nas profundezas e personagens tentando entender o que está acontecendo, Profundezas consegue ser uma experiência bastante interessante.
Só fica o aviso:
quando você terminar, provavelmente também vai pensar: faltou mais lula.
Curiosidades
A série foi filmada em Newfoundland and Labrador, Canadá. O litoral acidentado da região e as comunidades isoladas ajudaram a estabelecer a atmosfera distinta do programa.
O nome do navio de pesquisa, o RSV Sir John Franklin, tem o nome de um oficial da Marinha Real Britânica que liderou uma malfadada expedição ártica para atravessar a Passagem do Noroeste em 1847. Sua história foi a base para a primeira temporada de outra série de terror, The Terror (2018).
Onde assistir?
A série está na Netflix com 6 episódios.
Avaliações
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6,3
87%
6,5
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